9 min read
PercursosPICOS DE EUROPA E ASTÚRIAS: ROAD TRIP DE 7 DIAS COM TENDA DE TEJADILHO
Abres a tenda de tejadilho e tens à tua frente uma parede de calcário com mil metros de altura, ainda com neve no cume em pleno junho. Lá em baixo, o vale verde fervilha de vacas com chocalhos e o ar cheira a erva molhada. Não estás nos Alpes. Estás a quatro horas de carro de Santa Maria da Feira, nos Picos de Europa.
Se há destino feito à medida de quem viaja com tenda de tejadilho, é o norte de Espanha. As Astúrias são montanha a sério, costa selvagem, aldeias onde o tempo parou e uma gastronomia que, por si só, já justificava a viagem. E o melhor de tudo? Está logo ali. A partir do norte de Portugal, cruzas a Galiza e em poucas horas estás a subir as serras mais imponentes da Península Ibérica.
Preparámos um roteiro de 7 dias que sobe de Portugal até ao coração dos Picos de Europa e depois desce à costa asturiana, com os melhores parques de campismo, os miradouros que tens de conhecer e dicas práticas para quem dorme no tejadilho do carro.
Quando Ir (e o Que Tens Mesmo de Saber Antes de Partir)
A melhor altura para os Picos de Europa é de finais de maio a setembro. Junho e setembro são os meses ideais: dias longos, montanha sem a multidão de agosto e parques de campismo com preços mais simpáticos. No verão pode estar calor no vale e fresco em altitude, por isso leva sempre uma camada quente, mesmo em julho.
Um aviso importante antes de qualquer outra coisa: o acesso aos Lagos de Covadonga, um dos pontos altos do roteiro, está fechado a carros particulares durante toda a época alta. Em 2026, a estrada está encerrada a viaturas particulares de 1 de junho a 18 de outubro (com algumas exceções pontuais), bem como na Páscoa e em fins de semana de primavera. Nesses dias só se sobe de autocarro lançadeira, que parte de Cangas de Onís e arredores, com partidas a cada 30 minutos entre as 7h40 e as 19h. Planeia em conformidade: deixa o carro com a tenda no parque e sobe de bus. Fora dessas datas, podes subir livremente de carro.
O Percurso: Do Norte de Portugal aos Picos
A partir de Santa Maria da Feira, segue pela A3 até Valença e entra em Espanha. Daí apanhas a autovia até Oviedo e depois rumo a Cangas de Onís, a porta de entrada dos Picos de Europa. São cerca de 450 km, umas 4h30 a 5h de viagem.
A nossa sugestão? Não faças tudo de seguida. Aproveita para parar na Galiza pelo caminho, em Santiago de Compostela ou na ria de Ribadeo, e divide a subida em dois dias. Assim chegas aos Picos descansado e com a primeira noite já passada em cima do carro.
Dia 1-2: Cangas de Onís e os Lagos de Covadonga
Cangas de Onís é o campo base perfeito. Foi a primeira capital do reino das Astúrias e ainda guarda esse ar histórico, com a sua famosa Ponte Romana sobre o rio Sella, encimada pela Cruz da Vitória. O mercado municipal, a Igreja da Assunção e as esplanadas à beira-rio convidam a abrandar o ritmo.
Covadonga e os Lagos
A poucos quilómetros fica o Santuário de Covadonga, o berço da Reconquista, com a sua basílica encarnada encostada à montanha e a Santa Cueva escavada na rocha. O acesso a Covadonga é livre todo o ano.
Dali sobem-se os míticos Lagos de Covadonga, o Enol e o Ercina, dois lagos glaciares a mais de 1000 metros de altitude, rodeados de picos e de vacas a pastar. É a imagem postal das Astúrias. Lembra-te do que dissemos: na época alta sobe-se de autocarro a partir de Cangas de Onís ou Covadonga. No topo, faz pelo menos a Ruta de los Lagos, um percurso circular fácil de cerca de 5 km que liga os dois lagos e os antigos miradouros mineiros.
Onde acampar
O Camping Covadonga, em Soto de Cangas (a meio caminho entre Cangas de Onís e Covadonga), é uma das melhores bases do roteiro. Tem bons sanitários, restaurante, piscina e pitches com sombra para montar a tenda de tejadilho com vista para a montanha. Fica ainda o Camping Picos de Europa, em Avín, também muito bem posicionado para explorar a zona oriental. Preços a rondar os 25 a 30€ por noite para dois e um carro.
Dia 3: A Garganta do Cares, o Trilho-Rei dos Picos
Se só fizeres uma caminhada nos Picos, que seja esta. A Ruta del Cares liga Poncebos (Astúrias) a Caín (Leão) por um carreiro escavado na rocha, suspenso sobre um desfiladeiro de centenas de metros, com o rio Cares lá no fundo. São cerca de 11 km só de ida (22 km ida e volta), mas a maior parte das pessoas faz só uma parte e volta para trás, e mesmo os primeiros quilómetros já valem a viagem.
É um trilho exigente em distância mas sem grande desnível, bem marcado, com túneis escavados na pedra e pontes sobre o abismo. Leva água, calçado de montanha e começa cedo para evitar o calor e a multidão. A paisagem é, sem exagero, das mais espetaculares de toda a Europa.
Onde acampar
Para esta zona, o Camping Naranjo de Bulnes, em Arenas de Cabrales, é a escolha óbvia: fica perto de Poncebos, tem boas infraestruturas e está no coração da terra do queijo Cabrales. Acordas com a montanha à porta e a uns minutos do início do trilho.
Dia 4: Bulnes e o Queijo Cabrales
De Poncebos sobe-se a Bulnes, uma aldeia minúscula encravada na montanha onde vivem pouco mais de duas dezenas de pessoas. Até 2001 só se chegava a pé. Hoje tens duas opções: o funicular subterrâneo, que vence o desnível em poucos minutos, ou o carreiro a pé (cerca de 1h15 de subida), mais cansativo mas muito mais bonito. Lá em cima, almoça num dos pequenos restaurantes e admira a vista para o Naranjo de Bulnes, o pico mais emblemático da serra.
De volta ao vale, mergulha na cultura do queijo. O Cabrales é um queijo azul curado em grutas naturais da montanha, intenso e inconfundível. Em Arenas de Cabrales podes visitar a Cueva del Cabrales, uma gruta-museu onde percebes como nasce este queijo, e provar várias curas acompanhadas de sidra. Para comer, esta é a zona certa para um cachopo (o gigantesco escalope asturiano recheado) ou uma fabada.
Dia 5: A Sidra e a Costa - Ribadesella e Llanes
Hora de descer à costa. Ribadesella é uma vila encantadora na foz do rio Sella, famosa pelo descida internacional de canoagem em agosto e por uma praia urbana belíssima ladeada de casas senhoriais. Mesmo ali ao lado ficam as Cuevas de Tito Bustillo, com pinturas rupestres com mais de 30 mil anos, Património da UNESCO.
Segue depois para Llanes, talvez a vila costeira mais bonita das Astúrias. Tem um porto colorido pelos Cubos de la Memoria (uns molhes pintados pelo artista Agustín Ibarrola), um centro histórico medieval e, à volta, dezenas de pequenas praias escondidas entre falésias. Não percas os Bufones de Pría, uns furos naturais na rocha de onde o mar, em dias de ondulação, dispara jatos de água a vários metros de altura.
E claro, prova a sidra como manda a tradição: servida em altura, do alto, para a arejar, na infindável rede de sidrerías da região.
Onde acampar
A costa oriental asturiana está cheia de bons parques. O Camping Las Hortensias, em Vidiago (perto de Llanes), fica praticamente em cima de uma praia espetacular. Em alternativa, o Camping Playa de Troenzo, em Celorio, ou o Camping La Paz, em Vidiago, oferecem vistas de cortar a respiração para o mar e para os Picos ao fundo. Preços a partir de uns 25€ por noite.
Dia 6: As Praias Selvagens da Costa Asturiana
Dedica um dia inteiro às praias. A costa das Astúrias é um rosário de areais escondidos, muitos deles acessíveis só a pé por trilhos entre prados verdes que terminam a pique sobre o Cantábrico.
A Playa de Gulpiyuri é a estrela: uma praia em miniatura, sem mar à vista, alimentada por água que entra por baixo da rocha. Está classificada como Monumento Natural e fica a uma curta caminhada do parque de estacionamento. A Playa de Torimbia, perto de Niembro, é uma enseada selvagem em forma de concha sem qualquer construção à volta. E a Playa de San Antolín, mais aberta, é um clássico do surf asturiano.
É um dia para abrandar: trilho de manhã, mergulho ao meio-dia, sesta à sombra e fim de tarde numa esplanada à beira-mar.
Dia 7: Oviedo (ou Caminho de Casa)
No último dia, antes de regressar, vale a pena parar em Oviedo, a elegante capital das Astúrias. O centro histórico, com a sua catedral gótica, é perfeito para passear, e nos arredores ficam dois pequenos templos pré-românicos do século IX, Santa María del Naranco e San Miguel de Lillo, Património da UNESCO e únicos no mundo.
Dali, o regresso a Santa Maria da Feira faz-se em cerca de 5 horas, por Galiza. Se ainda tiveres fôlego, fica uma última noite em cima do carro algures pelo caminho e divide o regresso em dois dias.
Campismo Selvagem e Tenda de Tejadilho nas Astúrias
Atenção a este ponto, porque é diferente de Portugal. Em Espanha, e nas Astúrias em particular, o campismo livre (acampar fora de parques) é proibido, sobretudo dentro do Parque Nacional dos Picos de Europa, onde a fiscalização é apertada. A boa notícia é que a região tem uma densidade enorme de parques de campismo de qualidade, muitos com vistas espetaculares, por isso nunca ficas sem onde montar a tenda.
A app Park4Night é, mais uma vez, a tua melhor amiga para encontrar parques e áreas de autocaravana verificadas. Reserva com antecedência em julho e agosto, sobretudo na costa.
Dicas Práticas para a Viagem
O tempo na montanha muda depressa, mesmo no verão. Leva sempre uma camada impermeável e algo quente para a noite, porque a mais de 1000 metros as temperaturas caem bastante depois do pôr do sol. Um bom saco-cama faz toda a diferença para dormir confortável no tejadilho.
O nevoeiro é frequente nos Picos, sobretudo de manhã e ao fim do dia. Se subires aos Lagos ou fizeres o Cares, começa cedo para apanhar a montanha limpa.
A cobertura móvel pode falhar nos vales mais fundos e nos trilhos. Faz download dos mapas offline antes de partires e leva sempre água e comida nas caminhadas.
Confirma os horários e datas do plano de acesso aos Lagos de Covadonga antes de subir, porque mudam consoante a época. Em caso de dúvida, conta sempre com o autocarro lançadeira de Cangas de Onís.
Leva o Cartão Europeu de Saúde e confirma que o seguro do carro é válido em Espanha. Os preços são semelhantes aos de Portugal: parques entre 20 e 35€ por noite e refeições honestas nas sidrerías e casas de comida regional.
Conclusão
Os Picos de Europa são a prova de que não é preciso ir longe para encontrar montanha grandiosa. Em meia dúzia de horas a partir do norte de Portugal trocas as praias do Atlântico por cumes com neve, lagos glaciares, aldeias penduradas na rocha e uma costa verde como poucas na Europa. Tudo isto a dormir em cima do carro, com a serra a servir de despertador.
Este roteiro de 7 dias é uma sugestão, mas a verdade é que podias passar duas semanas nas Astúrias e continuar a descobrir vales, trilhos e praias escondidas. O importante é pegar no carro, abrir a estrada e deixar que a montanha faça o resto.
E se ainda não tens tenda de tejadilho, a GoCampers trata disso. Aluga a tua, monta o roteiro e cruza a fronteira rumo ao norte.
Informações Práticas
- Distância total do roteiro: aproximadamente 1000 km (ida e volta desde o norte de Portugal)
- Duração sugerida: 7 dias
- Melhor época: finais de maio a setembro
- Acesso aos Lagos de Covadonga: estrada fechada a carros particulares de 1 jun a 18 out 2026 (e fins de semana de primavera/Páscoa). Subida de autocarro lançadeira a partir de Cangas de Onís, cada 30 min, 7h40-19h
- Caminhadas-chave: Ruta del Cares (Poncebos-Caín), Ruta de los Lagos (Covadonga), subida a Bulnes
- Apps úteis: Park4Night, Google Maps offline, AEMET (meteorologia de montanha)
- Parques de campismo mencionados: Camping Covadonga (Soto de Cangas), Camping Picos de Europa (Avín), Camping Naranjo de Bulnes (Arenas de Cabrales), Camping Las Hortensias (Vidiago), Camping Playa de Troenzo (Celorio), Camping La Paz (Vidiago)
- Documentos: Cartão de Cidadão, Cartão Europeu de Saúde, seguro automóvel válido
Foto de capa: arquivo GoCampers